04/07/2008

“De manhã, os primeiros gestos de C.

Hoje de manhã C. levantou-se, esticou os braços, abriu as mãos até fazer um leque com os dedos. Depois, escovou com a mão o curto e negro cabelo. Duas horas mais tarde pegava, de determinada maneira, no seu livro preferido.
Interrompo aqui alguns gestos naturais de C. executados hoje de manhã. E interrompo porque, a partir deste momento, este relato dos gestos de intimidade de C. passaria a intimidar quem os ouve. Quero eu dizer que uma sequência de gestos que podem constituir uma rotina que a intimidade me possibilitou observar, realçar, destacar de todo o espaço privado, e que são anteriores a qualquer representação, podem transformar-se por uma leviana deslocação para um espaço público (de um olhar para muitos olhares, de um ouvido para muitos ouvidos, de um sentido para muitos sentidos), numa descrição intimista e violenta, cujos modelos mais radicais podíamos encontrar no Strip Tease e no Peep-Show.
Temos assim que aquilo que nos é mais íntimo – o corpo, os gestos do corpo -, aquilo que nos é mais interior, mais profundo (a intimidade apela sempre a uma sabedoria da descida), pode deixar de ser intimidade e passar a ser intimista, material de exibição, espectáculo da promiscuidade. Isto acontece quando se misturam espaços públicos com espaços privados, quando se torna coisa pública o que é coisa privada, quando se torna transmissível o que é secreto.”
A. Pinto Ribeiro, Dança temporariamente contemporânea, Vega, Lisboa, 1994 (p.22,23)